Do que é feito um bom cavalo?


 


Há a genética, mas se “cruzar o melhor com o melhor” resolvesse, os potros já nasceriam com certificado de garantia, como se fossem carros zero quilômetro.


 


Há o manejo, cujos diversos elementos se entrelaçam como elos de uma corrente: 99 elos do mais forte aço inox de nada adiantarão no momento em que tensão for aplicada sobre o único elo feito de arame enferrujado. A melhor nutrição não salva o aprumo não  corrigido a tempo, o melhor ferrador não conserta o estrago feito por treinamento inadequado, os melhores medicamentos só funcionam se receitados e aplicados corretamente, não há treinador nem veterinário que faça milagres do dia para a noite, e por aí vai.


 


Um bom cavalo é feito de CONHECIMENTO. Da sábia mistura, alquímica quase, de todos os ingredientes acima e daquela pitadinha a mais: do suor, do sangue e das lágrimas daqueles apaixonados que dedicaram a vida ao mister de se tornarem verdadeiras pessoas do cavalo.


 


Todo o resto são apenas ferramentas. Em qualquer trabalho, boas ferramentas são essenciais, mas de pouco ou nada valem se a pessoa não souber usá-las. Do contrário, para ser cirurgião bastaria comprar o instrumental; para ser campeão de fórmula 1, seria suficiente comprar o carro mais veloz. Pelo contrário, quanto mais sofisticada a ferramenta, maior habilidade é pré-requisito à sua utilização correta e segura.


 


O bom criador de cavalos usará seu conhecimento para combinar genética, nutrição, treinamento, manejo para criar os melhores cavalos de acordo com a finalidade que ele tem em mente. Terá por ambição criar uma “linhagem própria” facilmente identificável através de  fenótipo, temperamento e aptidão, mesmo que esta “fixação de tipo” seja trabalho para décadas. Quem é criador de fato sabe que uma criação bem sucedida  é definida pelo progresso genético, de fenótipo e de resultados, que ele tiver conseguido implantar de uma geração para a seguinte – em outras palavras, que suas potras sejam, em média, superiores à geração de suas mães. Por isso, ele acredita que o verdadeiro mérito não está em importar animais de ponta e acasalá-los com outros animais de ponta. Muitas vezes já, ele viu este filme, sobre como pseudo-criadores conseguem começar com o melhor e chegar no medíocre no espaço de poucas gerações, aí tendo que optar por “renovar o sangue” através de novas importações.


 


Para um verdadeiro criador, a paixão e a arte podem estar em começar com uma ou duas éguas, as melhores ao seu alcance, cruzando-as com o melhor nick disponível, dar atenção individualizada permanente aos potrinhos, desde a nutrição até os cuidados sanitários, a rotina diária, o casqueamento e finalmente o treinamento. Não faz mal que sejam poucos potros por ano, apenas uns dois ou três talvez, pois este criador sabe que potros não são bezerros, e que um campeão resulta da somatória de uma infinidade de pequenos detalhes, do conhecimento profundo que ele tenha da genética, da morfolgia, da personalidade, de qualidades e defeitos de seu animal. E mesmo com tudo isto, este criador será implacável na sua seleção, utilizando na reprodução apenas os produtos que se aproximarem de sua visão única, pessoal e absoluta do “cavalo perfeito”. Assim, em duas gerações ou três ele já estará mais perto do seu objetivo. Ele não tem pressa, sabendo que  chegar lá é missão de décadas ou mais. Tal como o homem que cultiva florestas, o criador de cavalos sabe que o fruto de seu trabalho pertence não a si mesmo, mas às gerações futuras, e que para ele mesmo, a recompensa será o caminho mais do que a meta. 


 


E você, se considera um criador de cavalos?


 


Autor: Desconhecido


Enviado por Bruno Souza Lima – Árbitro da ABCCMM